terça-feira, 19 de outubro de 2010
Um simples sorriso
Um dia destes cheguei na clínica onde fica meu consultório e a secretária me deu bom dia perguntando "A sua orelha não coçou ontem?" Respondi que não. E ela me disse que uma pessoa havia falado muito bem de mim. Pensei que era um paciente satisfeito, mas não era. Se tratava de uma pessoa a quem eu havia dado um sorriso e perguntado se estava precisando de alguma coisa quando a vi chegar um pouco perdida na clínica. Foi só isso. Na verdade nem me lembro da pessoa. Aquilo me fez pensar não em como eu era uma pessoa simpática e agradável, mas em quantas oportunidades de plantar coisas boas para mim e para os outros eu perdi nos dias em que não estava sorrindo.
domingo, 17 de outubro de 2010
"Não existe nenhuma dificuldade em minha vida que não seja exclusivamente eu Mesmo" C. G. Jung
A frase acima está impressa na sacola em que eu trouxe o Livro Vermelho. Mesmo antes de abri-lo, a sacola já me pareceu algo que soava fundo na consciência. Por estes dias me senti tentada diversas vezes a reclamar da vida, e imediatamente a sacola vinha a minha mente. Não que isto seja exatamente uma novidade. De fato creio que tudo, até mesmo o que não está bom, é em ultima análise fruto de mim mesma. Já expressei esta idéia antes em algumas postagens. Mas vê-la impressa em letras garrafais todos os dias sobre a minha mesa de trabalho, encarando-a diversas vezes, me forçou a entrar cada vez mais fundo em meu ser. E então eu voltava para perto de mim, para dentro de mim. Quando quis culpar o mundo, só encontrei eu mesma.
Esta idéia que promove o processo de individuação provavelmente é arquetípica, pois além da frase do famoso psiquiatra suíço, existe um compositor de música popular brasileira, Juraildes da Cruz, que compôs os seguintes versos capazes de despertar as mesmas reflexões nesta que vos fala:
"Eu tentei fugir de mim, mas aonde eu ia eu tava, quanto mais eu me escondia, mais eu me encontrava"
domingo, 10 de outubro de 2010
Amar ao próximo.
Muitas vezes, quando somos levados a falar ou a pensar a respeito de nós mesmos, é comum que a primeira vista nos vejamos inicialmente pelas qualidades,. Sim, podemos de fato ser pessoas legais, no geral. É, afinal, se não prejudicamos de forma grave alguém, e fazemos alguma caridadezinha de vez em quando, pode ser que seja o bastante para sermos sim pessoas legais. Bom, pelo menos acima da média, eu acho... É...
Mas quantas vezes não olhamos aqueles que estão próximos de nós. quantas vezes visitamos aqueles parentes doentes, paramos para conversar de verdade com maridos, esposas, pais, e filhos? Será que uma pessoa que não consegue amar de fato aqueles que estão mais próximos pode se vangloriar por fazer passeatas com o Greenpeace? Visitar orfanatos e asilos em dia de natal?
Você pode estar pensando "eles não me procuram". Mas e daí? Deixe de ser vítima e lembre da oração de São Francisco.
"Amar que ser amado/ Compreender que ser compreendido/ Pois é dando que se recebe"
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Como criança
Esta semana fui a um evento da SBPA (Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica) e na ocasião estavam vendendo o tão esperado "Livro Vermelho- Liber Novus" de C. G. Jung. Quem é da área e gosta de estudar o legado de Jung sabe da importância deste livro, que torna acessível ao nosso estudo a gênese do pensamento que tanto admiramos e utilizamos. Além do que, o livro em si é enorme, pesa quatro quilos e meio e tem gravuras lindíssimas. De modo que após minha aquisição, voltei para casa literalmente abraçada a ele, pois era impossível, para mim, carregá-lo de outro jeito. Foi neste momento, que o simples ato de carregar um objeto desejado e valioso para mim de encontro ao peito me trouxe um sentimento profundo de satisfação que eu já havia sentido antes. Quando seria mesmo? Ah! Foi quando aos 3 anos de idade meus pais me deram um enorme urso de pelúcia no Natal, um que eu namorava sempre quando passava na loja de brinquedos. Ele era tão grande para mim que a unica maneira de carregá-lo foi de encontro ao peito. Embora fossem dois objetos, a emoção por eles causadas certamente estão além do valor em si. Embora o livro seja bem caro e eu não faça idéia de quanto tenha custado um urso daqueles em 1977 (ainda mais com tantas trocas de moeda desde então...), já ganhei coisas certamente mais caras que não me despertaram o mesmo sentimento de satisfação.
Mas o que quero dizer mesmo com tudo isso, é que nós podemos crescer, e os objetos ou as aspirações podem (e devem) mudar, mas há algo de essencial a ser acessado quando se toca a alma do homem que não muda nunca, está na base, está no fato de ser humano, e no final o que importa mesmo é o sentimento.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
É melhor esquecer. (Será?)
Nossa mente não sabe a diferença entre uma lembrança e o que estamos vendo na realidade. Meu Deus, isso é fantástico por um lado mas assustador por outro. Como faremos então para nos livrar dos efeitos de experiências negativas? A primeira e mais comum opção e conselho costuma ser: Tente esquecer. Mas como assim esquecer?
Acredito que a grande função da psicologia analítica, é fazer com que o ser humano seja cada vez mais consciente de quem ele é, o processo de individuação é sinônimo de auto conhecimento, e para nos conhecermos precisamos expandir a consciência, e para expandir a consciência precisamos de mais memória. Como podemos acreditar que esquecer é a solução? O esquecer de fato, é aquilo que se torna inacessível à consciência, e se este é o mecanismo utilizado pela psique apenas significa que não estamos fortes o bastante para fazer o que precisa ser feito. A sujeira varrida para debaixo do tapete é mais perigosa que a aparente. O lixo que está a vista poderá ser eliminado no momento mais oportuno. Já o que está debaixo do tapete dá origem a ratos e baratas que invadem o ambiente sem que se saiba como deter a infestação, pois sua origem está oculta.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Tocar o mundo
Ontem conversando com um jovem paciente, falamos muito a respeito de um assunto que me é muito caro, a maneira como tocamos o mundo.
De fato cada decisão nossa, o simples fato de existirmos toca o mundo de uma maneira que não podemos sequer mensurar. Esta ação vai desde a forma mais física, palpável e observável até a forma mais quântica, que está além das percepções limitadas do cinco sentidos físicos.
Nós decidimos como queremos tocar o mundo de forma consciente. Uma destas formas cruciais é quando estamos prestes a decidir que carreira profissional queremos abraçar. Antes de mais nada eu digo que devemos decidir não pelo que está mais na moda, que esperam de nós, ou mesmo o que está dando mais dinheiro, mas a maneira que queremos viver nossa vida e como queremos tocar o mundo. Sim, porque tudo o que você faz reverbera em pessoas que você sequer um dia irá conhecer pessoalmente. Um bom exemplo disso é uma música, que quando composta e entregue ao mundo tocará um infinito número de pessoa, trará reflexões e despertará emoções profundas em pessoas que jamais trocarão sequer um olhar com o compositor. E na verdade assim é com tudo o que fazemos, pois tudo o que fazemos está sendo oferecido ao mundo, leva um pouco de nós para o universo, e certamente volta. Portanto ofereçamos algo que amemos fazer na vida e que traga benefícios ao mundo.
Cada um de nós tem um dom, algo que fazemos melhor que outros, e é isto que devemos oferecer. Fazendo isso seremos os melhores, e sendo os melhores ganharemos mais dinheiro. Ganharemos dinheiro felizes, porque trabalharemos com amor.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Aos jovens e futuros colegas clínicos - Coisas que não estão nos livros
Sei que ainda não sou tão velha assim, mas alguma experiência da profissão eu já posso passar. E desejo dizer algo para as pessoas que me procuram nesta época de decisão de carreira, futuros colegas com a faculdade em curso, e ainda aqueles que se formaram a pouco tempo e sentem que com a formatura o chão fugiu dos seus pés... É assim mesmo.
A profissão de psicólogo é uma daquelas em que o fim a faculdade é apenas o início da caminhada. Nós achamos que saímos psicólogos quando nos formamos, mas o diploma oferecido é apenas uma habilitação que nos permite começarmos a nos tornarmos psicólogos. As teorias e os sistemas de pensamento, assim como as técnicas são importantes, é claro, mas não é apenas o domínio de técnicas que faz um psicólogo clínico. Isto ocorre porque de forma mais intensa que na maioria das profissões nós somos e seremos sempre o nosso principal instrumento, usamos o nosso saber teórico e o nosso saber sobre nós mesmos.
Não adianta pensar que existe a imparcialidade pura, o que existe é a posição respeitosa frente as diferenças. Quando sabemos algo a respeito dos campos energéticos formados por nós e nossos pensamentos - não é mero misticismo e sim física quântica - fica fácil compreender que sua presença já não é imparcial. Mesmo que não digamos o que estamos pensando, o que somos e o que pensamos forma um campo que interage com o campo do paciente diante de nós, e é no espaço formado na interação destas dois camos que de fato se realiza o tratamento. Jung muito a frente de seu tempo no que diz respeito a clínica já havia apontado este fato mesmo antes de haver o boom da física quâtica e os eus paralelos com a psicologia. Mesmo que nada seja dito, estamos lá como nosso ser inteiro, nosso consciente e inconsciente criando um fluxo intenso como o consciente e o inconsciente do paciente. E neste campo as coisas adquirem proporções maiores do que imaginamos a princípio.
Em primeiro lugar, mesmo que não haja ninguém além de nós e o paciente em uma sala, somos responsáveis por cada ato e palavra no seting, e responderemos por eles no decorrer de nossos dias. Não há lugar para hipocrisia.
Segundo, os tipos de pacientes que nos procurarão serão sempre um reflexo da energia na qual estamos sintonizados, nós os atraímos, já que não há acaso.
Terceiro, a melhor maneira de afiar o nosso principal instrumento é praticar o conhece-te a ti mesmo.Quarto, nunca pense que não tem nada a oferecer, como já disse, nada é por acaso, e se aquele paciente veio te procurar há um motivo. Mesmo que no final acredite ser melhor indicá-lo a outro colega, até isso já é algo a oferecer.
Quinto, não se iluda pensando que não há nada para aprender com um paciente, a arrogância em um psicólogo pode ser sua ruína, pois corta o fluxo e empobrece o solo de onde esurgem os verdadeiros insigths.
Sexto e mais importante, ame o seu trabalho e ame os seus pacientes (como pacientes é claro!!!) pois o amor é a maior força do universo e deve estar presente em tudo o que fazemos, inclusive no nosso trabalho, e principalmente quando este envolve os sentimentos humanos.
Assinar:
Postagens (Atom)