sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O que é que eu estou fazendo aqui?

Acredito que esta perguntinha muito simples é a campainha do despertador que toca no fundo de nossa psique (lembrando que psique em grego é alma...) é um divisor de águas, uma chave que abre as portas para perceber o mundo, a pílula vermelha do filme Matrix... Considero esta pergunta tão importante que quando recebo um paciente, em algum momento procuro saber se ele já a fez, e isso me indica o nível de questionamento no qual se encontra, e por conseguinte o nível de profundidade no qual poderemos trabalhar.
É uma pergunta simples, quase obvia, mas muito difícil de fazer, e ameaçadora. Ameaçadora sim, porque ir atrás de sua resposta implica em admitir que somos mais responsáveis por nosso destino do que queremos admitir, nos faz ter mais responsabilidades do que de fato talvez queiramos arcar. E principalmente, nos tira do inebriante  conforto aparente da ilusão.
Mas infelizmente, a verdade é que a maioria das pessoas passa a vida inteira sem se questionar seriamente sobre o assunto, simplesmernte levando a vida, ou melhor, sendo levado por ela.
E quanto a você?

sábado, 29 de janeiro de 2011

BBB: O que os olhos não veem o coração não sente. ( Será?)

Hoje, colocando os meus emails em dia, vi algumas mensagens que falavam a respeito do atual BBB. Como eu me nego terminantemente a ver tal programa, não estava muito por dentro do que rolava por lá, mas os e mail me colocaram a par. Mesmo sem querer assistir a tal espetáculo aviltante, ele chegou até mim. Na verdade nunca acreditei muito naquele ditado que diz "O que os olhos não veem o coração não sente". Para quem já percebeu que nós seres humanos estamos todos conectados uns aos outros de alguma forma, sabe também que tudo o que acontece, principalmente um fenômeno de massa como esse, não deixa de afetar a todos nós. É como a poluição jogada no ar, como se fôssemos fumantes passivos ou coisa assim. Para mim esta edição foi como um quisto purulento que vinha crescendo sem que lhe dessem atenção e agora rompeu, deixando a mostra a podridão humana. Gostei disso. Desde o início já se via que tudo era armado para deixar eclodir a sombra do ser humano, mas agiam como se fosse uma competição normal, saudável. Sinto que mesmo que eu não assista algo assim, e não deixe que meus filhos o façam, os valores, ou a falta deles apregoadas pelo programa empesteiam os comerciais, jornais bancas de revistas e conversas nas rodas de amigos. Na verdade eu não acredito, como muitos dizem, que o BBB é um perversor de mentes. Não, ele não é o agente, ele ao contrário é fruto de mentes pervertidas e afastadas do que é realmente o objetivo da vida, da evolução espiritual do ser humano. 
As  coisas não me assustam por não querer ver o lado negro do ser humano, pois trabalho com isso há muitos anos e já ouvi muitas coisas. Mas quase todos que se sentam na minha frente estão,apesar de tudo, querendo alimentar o lado luminoso, querendo ter uma vida mais plena, deixar de alimentar os monstros. O que me dói é ver que muitos estão é querendo alimentar a fera com os próprios semelhantes, alimentar o vício   de viver em meio a fofocas e intrigas, ao invés de gastar tempo olhando para dentro e vendo seus próprios defeitos no intuito de melhorar. 
Mas por incrível que pareça, acho que ter chegado ao insuportável ponto que chegou é bom, pois como sempre digo: é vendo claramente a situação que podemos procurar uma solução.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Psicólogos e costureiros

Desde o ano passado quero falar a respeito de um assunto que foi trazido por uma jovem paciente. Ela foi comprar um vestido e quando entrou na loja pediu para experimentar um tamanho P, que seria  mais aproximadamente adequado ao seu físico. Para a sua surpresa a vendedora disse que era tamanho único. Entrou entrou entrou, não entrou paciência.
O que a loja oferecia era um absurdo reflexo do que vivemos hoje em quase todos os sentidos. Me lembrei imediatamente de minha avó, que era uma costureira de vestidos de noiva, ou seja, fazia de tudo. Ela me ensinou  a respeito de cada medida do corpo que se precisava tirar antes de começar a cortar uma roupa. Que além das obvias como cintura e quadris, tínhamos que ver se a pessoa tinha seios fartos para dar pregas mais ou menos profundas, pernas ligeiramente mais curtas e ombros caídos deveriam ser levados em conta para que a roupa assentasse bem e acolhesse o ser humano que iria vesti-la.
Com o tempo as roupas passaram a ser cada vez mais feitas em série, e nem por isso ficaram mais baratas, muito pelo contrário. Lojas chiquérrimas cobram caríssimo para que você tenha o privilégio de sair por ai desfilando e mostrando você cabe no estilo da marca tal. Sim, você tem que se adequar ao corpo de manequins irreais que assustam muitas pessoas só de passar na frente da vitrine. As roupas não são feitas para o seu perfil, você tem que se encaixar no perfil das lojas...
É um reflexo da negação da pessoa enquanto indivíduo, enquanto ser humano, que embora tenha um tanto de coisas parecidas com tantos outros, por outros lado é parecido ao seu modo.
Nessa onda muitas teorias psicológicas foram criadas na tentativa de colocar os seres humanos dentro de um mesmo molde, como se todos fossem responder as fórmulas comportamentais e pílulas milagrosas da mesma maneira. 
Cada vez mais admiro a atitude de Jung, que não queria que suas idéias fossem chamadas de teorias, e que embora dissesse que haviam estruturas psicológicas comum a todas as pessoas, o modo que cada um as trabalhava era um imenso mistério particular ao qual o analista tinha que se debruçar, usando todo o seu conhecimento e ao mesmo tempo colocando-o de lado para ouvir realmente.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

2011

Oi amigos, sei que não tenho escrito com muita frequência, mas os afazeres de fim de ano foram muitos, mas quero partilhar com vocês um pensamento para a entrada do ano de 2011.
Como já escrevi antes,  a virada do ano traz em si  uma aura mágica, como se um novo ciclo fosse realmente uma nova chance de fazer diferente. Gosto deste clima, e ao contrário do que muitos podem pensar, não considero uma superstição. Por isso existe o natal trazendo o renascimento de Jesus menino. Nas antigas religiões era muito comum um mito que falava do eterno renascimento de um ser divino. Vários pensamentos elevados em uma mesma sintonia, fazem com que a esperança seja sentida no ar, como se nesta semana que precede a virada nos permitisse tirar pesos dos ombros e participar de uma recarga positiva que usaremos no decorrer do ano. Tudo isso é um movimento mais espiritual que cronológico, pois o verdadeiro tempo está dentro de nós. Sim, façamos planos, tenhamos esperança, não apenas amanhã, mas sim em todas as nossas manhãs.
Uma das minhas promessas é escrever com mais frequência...
Feliz ano novo e grata de coração por lerem os posts.
Beijos

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Consumismo infantil e individuação

Recebi hoje um e-mail falando a respeito de um manifesto contra a publicidade abusiva feita para as crianças. Normalmente eu não costumo ser contra a publicidade. Mas eu disse normalmente... Pois faz tempo que a publicidade deixou de ser normal. As crianças são realmente bombardeadas com necessidades falsas e promessas de felicidade obtida por meio da aquisição de bens materiais. Para um ser em formação, isso tem danos catastróficos que são facilmente observados nos adultos que acabam indo se sentar no consultório. Quando esta publicidade massacrante não pode ser neutralizada por um lar relativamente equilibrado, com pais atentos que tem condição de ensinam valores reais (o que hoje em dia é muito raro) a propaganda acaba moldando o futuro adulto em valores completamente falsos, que o colocam no caminho oposto a plenitude. Isto se torna um grande entrave ao processo de individuação, pois na maior parte das vezes as pessoas são tão bombardeadas por valores tão fúteis do que é ser um ser humano de valor, que não conseguem nem enxergar a entrada que existe para dentro de si mesmo, para a descoberta dos próprios valores, do que é realmente ser humano, da própria beleza, do próprio talento. É a sombra da humanidade  se esgueirando com muita sutileza para envenenar o que há de mais precioso, a mente e os corações dos futuros adultos que ditarão os rumos do mundo. 
E tudo isso bem debaixo dos nossos narizes. Por isso devemos estar cada vez mais alertas, pois não há como afastar totalmente as crianças dos meios de comunicação como a tv e o computador. Devemos ser pais e educadores cada vez mais cautelosos e atenciosos, pois todo cuidado é pouco.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O medo.

Seria difícil não escrever nada a respeito de tudo o que vem acontecendo estes dias na cidade do Rio de Janeiro, lugar onde moro. Um dia antes da confusão armada na cidade meu filho me perguntou se medo curava soluço, pois quando se tomava um susto ele passava... Eu disse a ele que talvez a surpresa fizesse isso e não o medo. Agora já não sei...
Pois bem, quando tudo começou o medo tomou conta de toda  a cidade. Desconfiava-se de tudo, e até o paraíso da Zona Sul foi tocado. Ficamos todos com medo, eu também. Foi muito estranho ter que explicar para a minha filha de 10 anos que eu não sabia se ela iria fazer a prova porque havia uma ameaça de bomba na pracinha entre nossa casa e a escola, simples assim. Me ligaram do meu consultório dizendo que era melhor não vir porque também havia suspeita de bomba na praça de lá... 
Mas foi este mesmo medo que provocou uma reação á altura apoiada por todos os cidadãos. Enquanto todos não sentiam de fato o medo suscitado por uma guerra explícita que alcançasse os lugares mais nobres do Rio nada era realmente realizado na cabeça da cidade como um todo, isso era coisa do túnel para lá. Mas nossa cidade cercada de morros não tem para lá, é tudo aqui mesmo.
O medo em si não diz muito, o que deve ser levado em conta é o tipo de reação por ele suscitada. A pessoa pode recuar sentindo-se acuada, ou responder com grande agressividade, atacar para se defender. A reação  está sendo o ataque depois de muito tempo de recuo, vamos ver o que há de vir. Será que medo cura?

sábado, 13 de novembro de 2010

Rir para não chorar

Amigos, me perdoem a demora para postar. Existem momentos na vida em que precisamos dedicar todo o tempo e forças disponíveis para um devido fim e foi o que aconteceu. Mas estou aqui novamente.
Esta semana quero partilhar com vocês uma coisa engraçada que andou acontecendo no consultório. Algumas pessoas chegaram com questões no mínimo embaraçosas relativas ao convívio com o próximo. Ou seja, realações interpessoais que perpassam a vida de qualquer um de nós que não tenha optado para fugir para um mosteiro no Tibete. Pois sim, quando ouvi os casos, que eram muitas vezes dignos de lágrimas, me peguei rindo muito. Graças a Deus meus pacientes riam também, por vezes gargalhávamos. Era o mais puro exemplo do ditado "rir para não chorar". E deu certo. Com o riso grande parte dos embaraços perdia o peso e nós podíamos falar dos acontecimentos sob outra perspectiva, e deu muito certo. É claro que nem sempre dá para rir de tudo o que acontece, mas percebo que muitas vezes tudo depende de como queremos encarar as coisas da vida.
Vocês podem estar pensando que pimenta nos olhos dos outros é refresco. Concordo, o negócio é dar o exemplo, então tive na quinta a minha grande oportunidade: entrei no supermercado na hora de pico, e depois de enfrentar a maior fila, todas as máquinas de cartão de débito dos caixas entraram em pane, restando apenas uma maquineta funcionando para o mercado todo. Vocês podem imagina? Pois é, entrei em uma segunda fila enormeeeeee. No dia anterior quando fui tirar dinheiro no caixa eletrônico, o sistema nacional  do banco estava em pane e não havia previsão de retorno. Imaginei que eu devia estar carregada a ponto de afetar as máquinas, e comecei a rir. Atrás de mim um senhor xingava até mesmo a mãe do gerente  e toda a rede do mercado. Senti que dele emanava uma carga muito pesada e preferi me afastar. Embora eu entenda que não tivesse mesmo lá muita graça, sei que graças a uma escolha de atitude continuei o dia de forma bem melhor e mais leve. Eu sabia que se me aborrecesse ali, o resto do meu dia estaria comprometido, com aquele peso se arrastando atrás de mim. E isso foi uma opção. Espero que eu e você possamos ter condição de fazer esta mesma opção várias vezes durante a nossa vida.
Beijos.