sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
domingo, 19 de fevereiro de 2017
Mensagens conflitantes para mulheres de hoje.

Se você é ao menos um pouco reflexiva, continue a ler pois sei que vai me desculpar o jeito e compreenderá onde quero chegar. Porém, se não é esse o seu caso, deixa para lá, poderemos falar de outras coisas outro dia.
Tudo começou há algum tempo atrás numa divertida e despretensiosa roda de amigas entre 35 e 40 anos de idade. Modéstia parte, todas dispostas, saudáveis e bem aparentadas. Eis que chega mais uma e começa dizendo “Gente, li uma matéria a respeito de gestação muito interessante. ” Capturou nossa atenção, “Começava assim: A gravidez em mulheres idosa- abre parêntesis, a partir de 35 anos...” Todas começamos a rir. Era um fato, estávamos todas “passadas”. Pelo relógio da liberação de óvulos éramos idosas e nenhuma de nós se sentia assim. Embora fosse engraçado, alguns segundos depois comecei a intuir naquilo uma aura velada de humor negro. Não sei se elas pensaram a respeito disso, mas talvez nós só tivéssemos a capacidade de rir por já sermos todas mães. Era riso de nervoso, talvez alívio? Não sei ao certo. Mas nunca esqueci aquele dia.
Bem, há poucos meses senti aquela aura novamente. Eis que de poucos meses para cá algumas pacientes minhas com 30 ou 30 e poucos anos de idade, sem filhos, solteiras ou casadas- e absolutamente lindas e inteligentes diga-se de passagem - receberam o sábio conselho de uma grande amiga preocupada. “Fulana, vou te perguntar uma coisa, você pensa realmente em ter filhos algum dia? ” “Sim, pretendo, faz parte dos meus planos ter uma família” “Então acho bom você pensar seriamente em congelar seus óvulos, porque sabe como é, você está com 30 anos, ainda não tem nem namorado – ou seu casamento não vai durar, ou não se sustenta ainda – e sabe como é, a partir dos 30 os óvulos já não são mais a mesma coisa né, envelhecem. ” Ri muito com elas para dispersar o peso imenso que lhes foi jogado nos ombros, ou melhor seria sobre o útero, pela mensagem de fracasso embutida no sábio conselho. Ri, mas era de chorar. Sei que é verdade, óvulos de fato envelhecem, porém, várias amigas minhas geraram filhos saudáveis após os 40. Mas a pressão neurótica exercida sobre essas mulheres de 30 (nós todas?) por todos os lados com abundantes mensagens dúbias e contrárias exercidas pela mídia a pela própria indústria médica são de fato muito cruéis. São mulheres que tentaram fazer tudo “certinho” como manda o figurino, ou os diversos figurinos, e se viram em um limbo em que os mesmos não lhe ofereciam uma roupa adequada para vestir.
Há um descompasso cada vez maior entre o que é oferecido e exigido das mulheres hoje tanto em termos emocionais quanto profissionais e o que se espera de nossa biologia. Alguém que tem filhos entre 18 e 25 anos é vista como tendo tido uma gravidez precoce e depois dos 30 tardia. Gerar deixou de ser um processo natural e virou algo a ser evitado a todo custo, “evite, pois, acabará com a sua vida” para depois passar rapidamente do status de idealizado e romantizado do processo para o “corre ou não vai dar tempo”.
Isso faz com que a fase entre 26 e 30 anos seja uma gincana absurda, dentro dos quais há de cumprir tarefas como: ter uma carreira de sucesso, uma barriga sarada, fazer bonito no tubinho, arrumar um relacionamento estável com um homem que com certeza será um bom pai, e ainda ter se resolvido psicologicamente com os próprios pais, para ter todos os filhos antes que os óvulos percam o prazo de validade. E tudo isso exorcizando o fantasma da demissão pós licença maternidade. Pois sabe como é, depois que se chega aos 35 nem sempre é fácil, as empresas estão contratando pessoas jovens, e se sair para depois se recolocar... Meu Deus, não dá tempo de terminar todas as pós-graduações exigidas pelo mercado sem estar idosa.
Mas como assim idosa? Estamos de fato cada vez mais bonitas, saudáveis e saradas até bem depois dos 40, de forma que nem era imaginada por nossas avós.
Tudo graças a imensa oferta de uma diversidade de alternativas a gosto do freguês. Alimentos funcionais, orgânicos, crenes de beleza, filtro solar, vitaminas, yoga, academia, hormônios sintéticos ou isoflavona de soja (mesmo sendo transgênica, fazer o quê...), Botox, preenchimento, silicone e lipoaspiração! Sem falar de uma qualidade espetacular que as tintas para cabelo têm hoje em dia. Viva a evolução química e médica!
Atrás da mensagem de saúde, a promessa implícita de todo aquele avanço da medicina é, forever jung! Porém, eis que a mesma avança ferozmente sobre as mesmas “jovens” com a oferta quase opressora de que é bom congelar os óvulos até os 30. E o que dizer daquelas que acreditando na promessa do elixir imaginam que aos 30 ainda são adolescentes? E que de jovens passam a idosas pela simples leitura de um panfleto promocional de uma clínica que oferece o lucrativo serviço de congelamento de óvulos!
Não, isso não é justo! Médicas entram na faculdade aos 19 anos só viram especialistas aos 30, 31 anos, as advogadas jornalistas e publicitárias têm rotinas frenéticas de escritórios que não dormem e não pagam hora extra, as professoras em uma semana lecionam para mais de 500 alunos em 5 escolas diferentes atravessando a cidade em transportes precários e engarrafamentos. Como fazer isso tudo e criar filhos saudáveis sem carências psicológicas? E quando quando não se tem uma mãe presente, ou um marido que assume as responsabilidades que lhe cabem – nem pense na palavra ajuda para isso, chega a ser infame – ou muito dinheiro para pagar uma boa creche aliado a uma grande resistência a culpa de estar abandonando os filhos. Ficar em casa nem pensar, a crise econômica está rondando a porta, depender de marido é inviável, muitos não são confiáveis, e mesmo que sejam hoje em dia não fica bem, o que os outros vão dizer?
Então o que é ter 30 anos de idade? O que é ter 40, 50, 60.... O que é ser mulher, qual o propósito do tempo, o que é viver, onde mora o espírito?
Me perdoem, mas em muitos casos fazer as perguntas leva mais longe do que encontrar as respostas prontas.
Óvulos, botox, isoflavona, mercado de trabalho e outros ingredientes.

Se você tem mais de 25 anos e é ao menos um pouco reflexiva, continue a ler pois sei que vai me desculpar o jeito e compreenderá onde quero chegar. Porém, se não é esse o seu caso, deixa para lá, poderemos falar de outras coisas outro dia.
Tudo começou há algum tempo atrás numa divertida e despretensiosa roda de amigas entre 35 e 40 anos de idade. Modéstia parte, todas dispostas, saudáveis e bem aparentadas. Eis que chega mais uma e começa dizendo “Gente, li uma matéria a respeito de gestação muito interessante. ” Capturou nossa atenção, “Começava assim: A gravidez em mulheres idosa- abre parêntesis, a partir de 35 anos...” Todas começamos a rir. Era um fato, estávamos todas “passadas”. Pelo relógio da liberação de óvulos éramos idosas e nenhuma de nós se sentia assim. Embora fosse engraçado, alguns segundos depois comecei a intuir naquilo uma aura velada de humor negro. Não sei se elas pensaram a respeito disso, mas talvez nós só tivéssemos a capacidade de rir por já sermos todas mães. Era riso de nervoso, talvez alívio? Não sei ao certo. Mas nunca esqueci aquele dia.
Bem, há poucos meses senti aquela aura novamente. Eis que de poucos meses para cá algumas pacientes minhas com 30 ou 30 e poucos anos de idade, sem filhos, solteiras ou casadas- e absolutamente lindas e inteligentes diga-se de passagem - receberam o sábio conselho de uma grande amiga preocupada. “Fulana, vou te perguntar uma coisa, você pensa realmente em ter filhos algum dia? ” “Sim, pretendo, faz parte dos meus planos ter uma família” “Então acho bom você pensar seriamente em congelar seus óvulos, porque sabe como é, você está com 30 anos, ainda não tem nem namorado – ou seu casamento não vai durar, ou não se sustenta ainda – e sabe como é, a partir dos 30 os óvulos já não são mais a mesma coisa né, envelhecem. ” Ri muito com elas para dispersar o peso imenso que lhes foi jogado nos ombros, ou melhor seria sobre o útero, pela mensagem de fracasso embutida no sábio conselho. Ri, mas era de chorar. Sei que é verdade, óvulos de fato envelhecem, porém, várias amigas minhas geraram filhos saudáveis após os 40. Mas a pressão neurótica exercida sobre essas mulheres de 30 (nós todas?) por todos os lados com abundantes mensagens dúbias e contrárias exercidas pela mídia a pela própria indústria médica são de fato muito cruéis. São mulheres que tentaram fazer tudo “certinho” como manda o figurino, ou os diversos figurinos, e se viram em um limbo em que os mesmos não lhe ofereciam uma roupa adequada para vestir.
Há um descompasso cada vez maior entre o que é oferecido e exigido das mulheres hoje tanto em termos emocionais quanto profissionais e o que se espera de nossa biologia. Alguém que tem filhos entre 18 e 25 anos é vista como tendo tido uma gravidez precoce e depois dos 30 tardia. Gerar deixou de ser um processo natural e virou algo a ser evitado a todo custo, “evite, pois, acabará com a sua vida” para depois passar rapidamente do status de idealizado e romantizado do processo para o “corre ou não vai dar tempo”.
Isso faz com que a fase entre 26 e 30 anos seja uma gincana absurda, dentro dos quais há de cumprir tarefas como: ter uma carreira de sucesso, uma barriga sarada, fazer bonito no tubinho, arrumar um relacionamento estável com um homem que com certeza será um bom pai, e ainda ter se resolvido psicologicamente com os próprios pais, para ter todos os filhos antes que os óvulos percam o prazo de validade. E tudo isso exorcizando o fantasma da demissão pós licença maternidade. Pois sabe como é, depois que se chega aos 35 nem sempre é fácil, as empresas estão contratando pessoas jovens, e se sair para depois se recolocar... Meu Deus, não dá tempo de terminar todas as pós-graduações exigidas pelo mercado sem estar idosa.
Mas como assim idosa? Estamos de fato cada vez mais bonitas, saudáveis e saradas até bem depois dos 40, de forma que nem era imaginada por nossas avós.
Tudo graças a imensa oferta de uma diversidade de alternativas a gosto do freguês. Alimentos funcionais, orgânicos, crenes de beleza, filtro solar, vitaminas, yoga, academia, hormônios sintéticos ou isoflavona de soja (mesmo sendo transgênica, fazer o quê...), Botox, preenchimento, silicone e lipoaspiração! Sem falar de uma qualidade espetacular que as tintas para cabelo têm hoje em dia. Viva a evolução química e médica!
Atrás da mensagem de saúde, a promessa implícita de todo aquele avanço da medicina é, forever jung! Porém, eis que a mesma avança ferozmente sobre as mesmas “jovens” com a oferta quase opressora de que é bom congelar os óvulos até os 30. E o que dizer daquelas que acreditando na promessa do elixir imaginam que aos 30 ainda são adolescentes? E que de jovens passam a idosas pela simples leitura de um panfleto promocional de uma clínica que oferece o lucrativo serviço de congelamento de óvulos!
Não, isso não é justo! Médicas entram na faculdade aos 19 anos só viram especialistas aos 30, 31 anos, as advogadas jornalistas e publicitárias têm rotinas frenéticas de escritórios que não dormem e não pagam hora extra, as professoras em uma semana lecionam para mais de 500 alunos em 5 escolas diferentes atravessando a cidade em transportes precários e engarrafamentos. Como fazer isso tudo e criar filhos saudáveis sem carências psicológicas? E quando quando não se tem uma mãe presente, ou um marido que assume as responsabilidades que lhe cabem – nem pense na palavra ajuda para isso, chega a ser infame – ou muito dinheiro para pagar uma boa creche aliado a uma grande resistência a culpa de estar abandonando os filhos. Ficar em casa nem pensar, a crise econômica está rondando a porta, depender de marido é inviável, muitos não são confiáveis, e mesmo que sejam hoje em dia não fica bem, o que os outros vão dizer?
Então o que é ter 30 anos de idade? O que é ter 40, 50, 60.... O que é ser mulher, qual o propósito do tempo, o que é viver, onde mora o espírito?
Me perdoem, mas em muitos casos fazer as perguntas leva mais longe do que encontrar as respostas prontas.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
Branca de Neve a Rainha e o Espelho ou: Self, Ego e Consciência.
Em tempos nos quais as mulheres têm se identificado mais com
a Rainha Má que com Branca de Neve vale usar a rica metáfora.
Costumo dizer que todos os contos de fadas e mitos podem ser
vistos de diversos ângulos e níveis de profundidade, como uma paisagem que muda
a cada vez que é observada de um patamar diferente.
No caso da clássica Branca de Neve, ao invés de tratar do
embate eu e o outro que pretende no nível mais básico, falemos da estranha
relação entre o espelho, extremamente simbólico por si só, e a Rainha Má.
Eis que segundo a história, durante incontáveis dias, a
Rainha repete a mesma pergunta para o espelho “Espelho, espelho meu, existe no
mundo alguém mais bela do que eu? ” Trata-se de uma pergunta retórica, a
resposta já é esperada. A Rainha, apenas deseja a reafirmação cega e nada
consciente de seu valor externo. Está empedernida, arrogante e acomodada. Não
há um desejo de autoconhecimento, evolução ou transformação, apenas a necessidade
de manter as aparências externas, de receber o elogio e o olhar do outro. Mas
eis que este espelho não é um espelho qualquer, é um poderoso oráculo, que em sua
essência é conectado às profundezas do inconsciente, e quando menos se espera
surge com a incômoda verdade.
Quando isso acontece, a Rainha passa a sofrer com a força do
tempo (nosso velho Cronos) não vê que uma bela criança cresce em seu próprio
universo. Ao invés de abraça-la e reconhecer seu brilho divino, a faz querer
ser sua serva, diminuindo o seu valor. Mas ora, Branca de neve é de fato a
filha legítima do Rei, a herdeira natural, e não pode ser serva de ninguém. O
Self jamais será servo do Ego. Quer queira quer não, chega um dia em que o
espelho, aquela voz interior começa a dizer outra coisa. Branca de Neve agora é
a mais bela. Neste momento a Rainha ainda poderia sem maiores problemas aceitar
o novo, porém, o ego irrefletido é assim mesmo, luta para manter-se vivo, para
legitimar-se como senhor do espírito, centro da psique. E assim é. O ego nega a
voz profunda que vem do inconsciente e começa a se tornar cada vez mais
consciente, e luta contra a transformação, mas como todos sabem, não tem jeito.
Até quanto estamos identificados com a Rainha má que deseja
apenas a manutenção das aparências entrando em um estado de comodismo a ponto
de querer até mesmo matar este novo belo, porém comprometedor, Self que vem se
apresentando e exigindo transformações?
sábado, 21 de janeiro de 2017
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