sábado, 12 de março de 2016

FORA CORRUPTOR DO ESPELHO! - As leis de Newton e Hérmes Trismegisto.


Bom dia Alice, o país de fato não está uma maravilha. Mas o movimento é bom. Bom em todos os níveis, pois se engana quem pensa que se aplica apenas à situação política do Brasil. Tudo está acontecendo também dentro de um país vastíssimo e pouco explorado chamado você.
“O grande é como o pequeno, e o de cima é como o de baixo, o de fora é como o de dentro” Princípio da correspondência. O Kibalion Hérmes Trismegisto
E o que uma coisa tem a ver com a outra? Absolutamente tudo. Toda movimentação externa, tem o seu correspondente interno, pois afinal de contas, ao contrário do que possam imaginar ou querer acreditar alguns, vivemos em um sistema, tanto no nível físico e biológico, quanto no psicológico e espiritual. Não há como uma situação social e política desta magnitude ocorrer apenas do lado de fora. Nunca é assim. Como trabalho ouvindo a vida única de cada ser humano, esta realidade salta aos meus olhos de forma muito nítida. Se tomarmos consciência desse fato, podemos aproveitar esta força de renovação para transformar velhos hábitos dentro de nós mesmos que minam nossa energia vital porque muitas vezes queremos atribuir ao nossos “pequenos vícios” um nada demais. Não falo apenas da corrupção do flanelinha, do guarda de transito, das compras pessoais que entram na nota da empresa, mas da pior das corrupções que é trair a si mesmo. Quando a pessoa corrompe seus próprios princípios costuma acreditar na impunidade, pois se ninguém sabe o que eu fiz, então é como se eu não tivesse feito. No melhor estilo “O que os olhos não veem o coração não sente”. Sente sim e como sente... O seu coração sente, pois seus olhos viram. Quando isso acontece, pessoas que prezam por fidelidade e traem, estão traindo a si mesmas, pelo simples fenômeno newtoniano que no campo da física clássica já fala da “ação e reação”.  E na premissa de que “O de cima é como o de baixo”, no nível de cima ela se chama lei do retorno, merecimento ou karma”. Tudo o que se faz de ruim ao outro na verdade só está sendo feito contra si mesmo. É justo e correto bradar por justiça, mas ao fazer isso, lembre-se que a palavra justiça não é algo que se aplica apenas ao governante, a quem está fora (existe fora?) é um apalavra que atravessa tudo e todos em toda e qualquer instância, inclusive no que diz respeito ao “pequenos” delitos de cada um. Se chamar a justiça ela vem, mas não se preocupe, se não chamar ela vem também.
Então ao exigirmos clareza na política, vamos exigi-la dentro de nós mesmos, vamos banir o corruptor interno, que desvirtua o Eu fingindo que não existe porque ninguém vê. Veja você, haja de acordo com os seus princípios, tenha princípios válidos, e um dia a corrupção no mundo deixará de existir.

Simples assim, mas o simples nem sempre é fácil.

domingo, 6 de março de 2016

PREDADORES EMOCIONAIS - Os 10 passos do ataque.



Esta semana muitas coisas aconteceram – como sempre – e a cada uma delas eu pensava: Vou escrever a respeito disso. Não, é sobre aquilo! Até que por fim, a derradeira conversa da semana venceu. (Queria escrever algo mais suave, filosófico, mas fica para a próxima, prometo).
Mais uma vez eu estava escutando uma pessoa em busca de recuperação após um envolvimento doloroso. E não foi nem o primeiro, nem o segundo nem o terceiro caso da semana. Eis que a história contada por homens e mulheres de diversas idades, meios e interesses diversos atingiam contornos quase arquetípicos: Foram retalhadas por predadores emocionais. Eis aqui os passos que configuram o ataque, veja se isso te diz respeito.
1-      Os pacientes em questão possuem boa índole, capacidade de doação e o desejo de ter um relacionamento sério. Um dia conhecem uma pessoa, o predador. De início não se interessam muito por elas - até uma leve repulsa quem sabe... Mas ok.
2-      O predador insiste em ter algo a mais, então pensam “por que não?”
3-      São emitidos nítidos sinais de que há algo de verdadeiro, de valor.
4-      O tempo passa e nada de namoro.
5-      O tempo passa e ainda nada de namoro. Afinal, estamos nos conhecendo.
6-      Depois que se conhece tudo, tudinho mesmo que se tem para conhecer por dentro e por fora, do avesso e do direito, o predador que insistia em ter algo diz que as coisas estão indo muito rápido. É a hora de frases “Você é muito especial, mas não estou em condições de ter um relacionamento ainda.” ???
7-      Surge a pergunta “Mas o que estávamos tendo então?’
8-      Descobre-se que ele ou ela estavam saindo com várias pessoas ao mesmo tempo, não haviam contado, mas também ninguém perguntou... Afinal não temos nada.
9-      Vem a fatídica proposta de predador “Podemos continuar assim mesmo”
10-   Vem a lúcida resposta “Não”. (Assim espero!)
Se isso já aconteceu – ou infelizmente anda acontecendo com você – Sabe o quanto é duro, mesmo após ter mantido a dignidade, ir para um canto lamber as feridas do que para você possuía os contornos de um relacionamento de verdade.
Resta sempre a pergunta do motivo pelo qual as pessoas mais legais são vítimas dessa espécie de ataque, e a resposta é que isso acontece com quem possui algo para dar. Mas que se encontra tão ávidas para construir algo que acabam ingenuamente apostando fichas nos famosos predadores emocionais. Sim, e eles são muitos, como uma epidemia de zumbis assolando as cidades e as noites, sabem o que dizer e principalmente, sabem como seduzir a presa. Mas há de lembrar que à primeira vista algo dentro de você, que não dá para determinar direito o que é, algo no campo da intuição, já tinha lhe feito eriçar os pelos em sinal de alerta, mas o predador interno chamado carência mandou-o esquecer isso e disse “Quem sabe?”
Já pensou quantas vezes seus limites foram brutalmente invadidos, pois o outro o fazia crer que ceder era flexibilidade quando na verdade era apenas abuso? Que hoje em dia é assim, que seus valores são antiquados e irreais?
Se isso acontece muitas vezes faz-se necessário um exame profundo do que realmente você está procurando para a sua vida, e principalmente do valor inconsciente que atribui a você mesmo. E ainda, se de fato quer um relacionamento, pois pessoas de má índole garantem um não relacionamento, e a “certeza” de que você mostra para o mundo que tenta, mas a vida é injusta...
Seja por ingenuidade ou uma programação estranha oculta na psique, faça o que puder para se recuperar, compreender a fundo o que está acontecendo, para que isso não aconteça mais, e você tenha o que você procura, um bom relacionamento. Eles existem, e um bom caminho para encontra-lo é amar a si mesmo com a mesma capacidade que você já tem de amar o próximo. 
Ah! passoas legais existem! Em maior número do que você imagina, dou minha palavra. O segredo é mudar a sintonia e saber onde procurar.


domingo, 28 de fevereiro de 2016

Anestesia psicológica e cinema. – Observe os sintomas.

Síndromes contemporâneas.





 

Lembro que a primeira que vi o filme de Stanley Kubrick, Laranja Mecânica, me senti profundamente perturbada com a brutalidade de Alex de Large e seus amigos. Mesmo assim, arranjando estômago por muitos semestres sugeri o filme como tema de trabalho para meus alunos, pois ele levantava críticas e questões que davam muito o que pensar. Lembro também de quando vi Psicose de Alfred Hitchcock, nossa o que foi aquilo!
Bom, é o que foi aquilo mesmo, porque hoje isso não é mais nada. Virou fichinha perto do capítulo mais terno de Game of Trones e Ao lado dos filmes que contam O Exorcismo de Cicrana, Fulana e Beltrana, Normam Bates até que é um cara normal, afinal o coitado não tinha uma mãe legal, dá pra entender. Tem até uma série que explica direitinho.
Recentemente fui ver o mega indicado ao Oscar: O Regresso. O título é extremamente apropriado, porque desde a primeira cena eu só pensava em sair dali e regressar para casa. Não fui porque para minha aflição os acompanhantes não demostraram o mesmo sentimento. Não demostraram por puro estado de choque como vim a descobrir no fim do filme, assim como toda a plateia. Então fiquei, como um teste de resistência psicológico, onde eu tinha a nítida sensação de que o objetivo principal não é contar uma história, é mexer com os nervos, incomodar ao máximo o espectador, para testar, agredir, conseguir enfim comove-lo com alguma coisa, mesmo que seja com a ultraviolência, porque sexo já não escandaliza mais ninguém, por isso houve o advento dos 50 tons de cinza e afins. “Agora vai! Agora eles vão ficar escandalizados de verdade” animam-se os produtores. Nesse festival psicopata escuto ao fundo a voz de Quentin Tarantino esbaforido, correndo e gritando: Espera aí que eu estou chegando, vocês vão ver só o que eu consigo! Iñárritu responde: Não adianta botar os bofes pra fora, já fiz isso no meu filme com o Leonardo e um cavalo!
Na verdade o engraçado é que não tem graça nenhuma. Todos estes filmes e muitos outros atraem milhões de pessoas ao cinema, ou diante das televisões, se expondo sem filtro algum a vivenciar através do nosso mais contundente sentido uma realidade que em sã consciência e equilíbrio mental ninguém desejaria para si. Escuto a todo momento as pessoas dizendo como desculpa: “Mas a história é interessante”. Na verdade é difícil assumir, ou mesmo compreender que as pessoas desejam sentir medo, nojo e aversão. A nossa mente, ou alma, como queiram, é alimentada pelas experiências e percepções que temos, e elas ficam profundamente gravadas na memória, seja consciente ou inconsciente, se é bom eleva, se é tóxico envenena aos poucos.
As pessoas se encontram entorpecidas. A vida está sem graça, sem emoção e sem objetivo. Repleta de Intimidades Superficiais com a família amigos, colegas de trabalho, onde pode-se até conviver com as pessoas sem que a profundidade da alma possa ser partilhada. Com o cotidiano ocupado por frenéticos movimentos estagnados, onde parece haver produção quando se levanta todos os dias para trabalhar e estudar, mas na verdade nada está realmente acontecendo, o sentimento de vazio e estagnação é avassalador.
Isso esclarece o enigma do motivo pelo qual as pessoas andam se comprazendo com espetáculos do gênero, elas estão desesperadas. Desesperadas porque já não sentem mais nada, querem alguma coisa da dose mais forte que tenha na prateleira capaz de fazê-las sentir alguma emoção, mesmo que primária, que os lembrem que ainda são humanos, pois há tempos que as notícias do telejornal de massacres na Áfricas não valem uma olhada e as pessoas caídas na rua são o mesmo que um hidrante.
Mas isso acabou virando uma epidemia, algo semelhante a uma lepra psicológica. Os filhos de uma geração como essa estão se tornando pessoas extremamente agressivas e desesperadas, na esperança de que assim possam ser percebidas, mas tudo que acontece é lhe darem uma classificação, uma sigla correspondente a um transtorno mental que por sua vez pode ser tratado com uma pílula.
Já perdi a conta de quantos pré-adolescentes atendi com perturbações psicológicas instaladas após ver um filme de terror, passaram a ter enurese noturna e não conseguir mais ter um sono tranquilo sozinhos ou de luz apagada, chegando mesmo a desenvolver o início da Síndrome do Pânico. “Ah, é uma válvula de escape, assim a pessoa não coloca isso em prática, sublima vendo o filme ou no vídeo game”. Sério? Então é mais grave do que pensei, temos uma epidemia de psicopatas em potencial que precisam ser aplacados com uma produção constante de litros de sangue de artificial para que não queira ver o de verdade.
E como bem já dizia Jung, toda doença psíquica é uma tentativa errada de procurar a cura.

Gente, não é por esse lado.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A Síndrome da Gaiola Dourada - Você tem?


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Geralmente somos nós mesmos que ignorando a máxima sabedoria "nem tudo que reluz é ouro", nos deixamos seduzir por coisas situações e pessoas que se tornam verdadeiras arapucas. Isso não é novo, faz parte da história do ser humano. Existem alguns contos de fadas e mitos que trazem este fenômeno á tona, como os sapatinhos vermelhos, brilhantemente elucidado no livro de Clarissa Pínkola Estés Mulheres que correm com os lobos. As pessoas acometidas desta situação possuem o que chamo de Síndrome da Gaiola Dourada. Os sintomas mais comuns são:
Vivenciam uma situação da qual reclamam mas não conseguem se desvencilhar,na qual entraram por livre e espontânea vontade, pois na ocasião oportuna pareceu ser uma boa idéia... Mas eis que com o tempo o que parecia ser a salvação da lavoura se torna uma prisão da qual a pessoa não consegue sair, com o pequeno detalhe de que ela mesma é seu próprio carcereiro.
Como assim? Eu explico.
Quando isso acontece, significa que na situação dita difícil, existe um ganho secundário, algo que o auto-prioneiro não tem coragem de abrir mão, seja por medo, insegurança, acomodação, ou o mais comum, tudo isso junto. Exemplos de gaiolas douradas são: relacionamentos que oferecem alguma estabilidade financeira, status ou simplesmente o fato de não estar só. Empregos e concursos públicos que a pessoa detesta mas que por medo de perder a estabilidade se condenam a permanecer ali até a velhice. Licenças por doenças que se cronificam; Práticas ilícitas - famoso jeitinho que se transforma em uma prática viciada e situações afins. Você me  entendeu.
Tudo isso por acreditar que não possuíam, ou possuem, recursos internos suficientes para ir além, então vão ficando... Invariavelmente encontramos baixa auto-estima, medo e preguiça, que aos poucos minam o que há de mais valioso no ser humano, a sua originalidade, criatividade, alegria, entusiasmo e a possibilidade de se tornar o que realmente é em sua essência, algo que parece ter ficado lá atrás. soterrado em meio a tantos senões e poréns que adiam interminavelmente uma decisão. Primeiro culpam os outros, depois a si mesmas, mas eis que não encontrando forças para mudar, depressão, vícios e toda sorte de compulsões são lugar comum.
Aceitar uma vida assim é como ser Fausto, assinar um contrato com o diabo, aquele em que se penhora a alma  em troca de certas facilidades... No melhor estilo mephistofeles tão bem retratado em na obra de Goethe. Só que a alma é cobrada em vida. Perda da alma é um termo bem adequado...
Olhe com sinceridade e veja se realmente a situação é incontornável, veja se as coisas às quais está apegados realmente tem valor, se valem uma vida não vivida. A prudência é amiga, mas já o medo, de viver e enfrentar a jornada não deve ser maior que o medo de perder os pés.
Vale a pena ler a história abaixo.


  
Os Sapatinhos Vermelhos

Era uma vez uma pobre órfã que não tinha sapatos. Essa criança guardava os trapos que pudesse encontrar e, com o tempo, conseguiu costurar um par de sapatos vermelhos. Eles eram grosseiros, mas ela os adorava. Eles faziam com que ela se sentisse rica, apesar de ela passar seus dias procurando alimento nos bosques espinhosos até muito depois de escurecer.
Um dia, porém, quando ela vinha caminhando com dificuldade pela estrada, maltrapilha e com seus sapatos vermelhos, uma carruagem dourada parou ao seu lado. Dentro dela, havia uma senhora de idade que lhe disse que ia levá-la para casa e tratá-la como se fosse sua própria filhinha. E assim lá foram elas para a casa da rica senhora, e o cabelo da menina foi lavado e penteado. Deram-lhe roupas de baixo de um branco puríssimo, um belo vestido de lã, meias brancas e reluzentes sapatos pretos. Quando a menina perguntou pelas roupas velhas, e em especial pelos sapatos vermelhos, a senhora disse que as roupas estavam tão imundas e os sapatos eram tão ridículos que ela os jogara no fogo, onde se reduziram a cinzas.
A menina ficou muito triste, pois, mesmo com toda a fortuna que a cercava, os modestos sapatos vermelhos feitos por suas próprias mãos haviam lhe dado uma felicidade imensa. Agora, ela era obrigada a ficar sentada quieta o tempo todo, a caminhar sem saltitar e a não falar a não ser que falassem com ela, mas uma chama secreta começou a arder no seu coração e ela continuou a suspirar pelos seus velhos sapatos vermelhos mais do que por qualquer outra coisa.
Como a menina tinha idade suficiente para ser crismada no dia do sacramento, a senhora levou-a a um velho sapateiro aleijado para que ele fizesse um par de sapatos especiais para a ocasião. Na vitrina do sapateiro havia um par de lindíssimos sapatos vermelhos do melhor couro. Eles praticamente refulgiam. Pois, apesar de sapatos vermelhos serem escandalosos para se ir à igreja, a menina, que só sabia decidir com seu coração faminto, escolheu os sapatos vermelhos. A vista da velha senhora era tão fraca que ela, sem perceber a cor dos sapatos, pagou por eles. O velho sapateiro piscou para a menina e embrulhou os sapatos.
No dia seguinte, os membros da congregação ficaram alvoroçados com os sapatos da menina. Os sapatos vermelhos brilhavam como maçãs polidas, como corações, como ameixas tingidas de vermelho. Todos olhavam carrancudos. Até os ícones na parede, até as estátuas não tiravam os olhos reprovadores dos sapatos. A menina, no entanto, gostava cada vez mais deles. Por isso, quando o bispo começou a salmodiar, o coro a cantarolar, o órgão a soar, a menina não achou que nada disso fosse mais belo que os seus sapatos vermelhos.
Antes do final do dia, a velha senhora já estava informada dos sapatos vermelhos da sua protegida.
— Nunca, nunca mais use esses sapatos vermelhos! — ameaçou a velha. No domingo seguinte, porém, a menina não conseguiu deixar de preferir os sapatos vermelhos aos pretos, e ela e a velha senhora caminharam até a igreja como de costume.
À porta do templo estava um velho soldado com o braço numa tipóia. Ele usava uma jaqueta curta e tinha a barba ruiva. Ele fez uma mesura e pediu permissão para tirar o pó dos sapatos da menina. Ela estendeu o pé, e ele tamborilou na sola dos sapatos uma musiquinha compassada que lhe deu cócegas nas solas dos pés.
— Lembre-se de ficar para o baile — disse ele, sorrindo e piscando um olho para ela.
Mais uma vez, todos lançaram olhares reprovadores para os sapatos vermelhos da menina. Ela, no entanto, adorava tanto esses sapatos que brilhavam como o carmim, como framboesas, como romãs, que não conseguia pensar em mais nada, que mal prestou atenção no culto. Estava tão ocupada virando os pés para lá e para cá para admirar os sapatos que se esqueceu de cantar.
— Que belas sapatilhas! — exclamou o soldado ferido quando ela e a velha senhora saíam da igreja. Essas palavras fizeram a menina dar alguns rodopios ali mesmo. No entanto, depois que seus pés começaram a se movimentar, eles não queriam mais parar; e ela atravessou dançando os canteiros e dobrou a esquina da igreja até dar a impressão de ter perdido totalmente o controle de si mesma. Ela dançou uma gavota, depois uma csárdás e saiu valsando pelos campos do outro lado da estrada.
O cocheiro da velha senhora saltou do seu banco e correu atrás da menina. Ele a segurou e a trouxe de volta para a carruagem, mas os pés da menina, nos sapatos vermelhos, continuavam a dançar no ar como se ainda estivessem no chão. A velha senhora e o cocheiro começaram a puxar e a forçar, na tentativa de arrancar os sapatos vermelhos dos pés da menina. Foi um horror. Só se viam chapéus caídos e pernas que escoiceavam, mas afinal os pés da menina se acalmaram.
De volta à casa, a velha senhora enfiou os sapatos vermelhos no alto de uma prateleira e avisou a menina para nunca mais calçá-los. No entanto, a menina não conseguia deixar de olhar para eles e ansiar por eles. Para ela, eles eram o que havia de mais lindo no planeta.
Não muito tempo depois, o destino quis que a velha senhora caísse de cama e, assim que os médicos saíram, a menina entrou sorrateira no quarto onde eram guardados os sapatos vermelhos. Ela os contemplou lá no alto da prateleira. Seu olhar tornou-se fixo e provocou nela um desejo tão forte que a menina tirou os sapatos da prateleira e os calçou, na crença de que eles não lhe fariam mal algum. Só que, no instante em que eles tocaram seus calcanhares e seus dedos, ela foi dominada pelo impulso de dançar.
E saiu dançando porta afora e escada abaixo, primeiro uma gavota, depois uma csárdás e em seguida giros arrojados de valsa em rápida sucessão. A menina estava num momento de glória e não percebeu que enfrentava dificuldades até que teve vontade de dançar para a esquerda e os sapatos insistiram em dançar para a direita. Quando ela queria dançar em círculos, os sapatos teimavam em seguir em linha reta. E, como eram os sapatos que comandavam a menina, em vez do contrário, eles a fizeram dançar estrada abaixo, atravessar os campos enlameados e penetrar na floresta soturna e sombria.
Ali, encostado numa árvore, estava o velho soldado de barba ruiva, com o braço na tipóia e usando sua jaqueta curta.
— Puxa — disse ele —, que belas sapatilhas!
Apavorada, a menina tentou tirar os sapatos, mas por mais que puxasse, eles continuavam firmes. Ela saltava primeiro num pé, depois no outro, para tentar tirá-los, mas o pé que estava no chão continuava dançando assim mesmo e o outro pé na sua mão também fazia seu papel na dança.
E assim, ela dançava e dançava sem parar. Por sobre os montes mais altos e pelos vales afora, na chuva, na neve e ao sol, ela dançava. Ela dançava na noite mais escura, no amanhecer e continuava dançando também ao escurecer. Só que não era uma dança agradável. Era terrível, e não havia descanso para a menina.
Ela entrou no adro de uma igreja e ali um espírito guardião não quis permitir que ela entrasse.
— Você irá dançar com esses sapatos vermelhos — proclamou o espírito — até que fique como uma alma penada, como um fantasma, até que sua pele pareça suspensa dos ossos, até que não sobre nada de você a não ser entranhas dançando. Você irá dançar de porta em porta por todas as aldeias e baterá três vezes a cada porta. E, quando as pessoas espiarem quem é, verão que é você e temerão que seu destino se abata sobre elas. Dancem, sapatos vermelhos. Vocês devem dançar.
A menina implorou misericórdia mas, antes que pudesse continuar a suplicar, os sapatos vermelhos a levaram embora. Ela dançou por cima das urzes, através dos riachos, por cima de cercas-vivas, sem parar. Ainda dançava quando voltou à sua antiga casa e viu pessoas de luto. A velha senhora que a havia abrigado estava morta. Mesmo assim, ela passou dançando. Dançava porque não podia deixar de dançar. Totalmente exausta e apavorada, ela entrou dançando numa floresta onde morava o carrasco da cidade. E o machado na parede começou a tremer assim que pressentiu que ela se aproximava.
— Por favor! — implorou ela ao carrasco quando passou pela sua porta. — Por favor, corte fora meus sapatos para me livrar desse destino horrível.
O carrasco cortou fora as tiras dos sapatos vermelhos com o machado, mas os sapatos não se soltaram dos pés da menina. Ela se lamentou, então, dizendo que sua vida não valia mesmo nada e que ele deveria amputar-lhe os pés. Foi o que ele fez. Com isso, os sapatos vermelhos com os pés neles continuaram dançando floresta afora e morro acima até desaparecerem. A menina era, agora, uma pobre aleijada e teve de descobrir um jeito de sobreviver no mundo trabalhando como criada. E nunca mais ansiou por sapatos vermelhos.



Mulheres Que Correm Com Os LobosMitos e Histórias dos Arquétipos da Mulher SelvagemClarissa Pinkola EstésEditora Rocco






sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

50 Tons de Roxo, Carnaval e o Barba Azul.

                                   

"Me senti como se estivesse em Sodoma e Gomorra" Ouvi esta frase de uma amiga moradora do Leblon, que como eu, cometeu a imprudência de não sair do Rio. Como moro em Ipanema, só me restou balançar a cabeça e concordar. Aquilo estava longe de ser cultura alegria ou brincadeira, era tudo sub civilizado, perigoso e muito triste. Em nossa conversa nos inteiramos de casos de violência sexual, comas alcoólicos, mentiras, traições. Tudo isso ao som de ala-laô e o cheiro de esgoto a céu aberto. É claro que tem gente boa que vai aos blocos, mas estes muitas vezes são os que levam a sobra de situações que não criaram, apenas por estarem no local errado. E para piorar, quis ir ao cinema e o filme 50 Tons de Cinza havia dominado os cinemas assim como os blocos haviam dominado as ruas. Tudo em sincronia com a mensagem de que liberdade é libertinagem e amor... Bom... É o que mesmo? Ah sim! É ser algemada e espancada pelo namorado, pois afinal de contas já que ele é rico e bonito vale a pena.  Acordem! Encontrar um Sr Gray pela frente só pode acabar com 50 tons de roxo detectados no exame de corpo delito.
As pessoas estão sem norte, pois o que lhes ensinam é justo o contrário do que é o amor. Amor é sinônimo de orgasmo a qualquer custo, falta de capacidade de ser fiel virou amor livre. E na falta de perspectiva só resta mesmo sexo e bebida, pois só embriagado para não ver a que ponto o ser humano pode se maltratar e desrespeitar, só entorpecendo os sentidos. Trabalho todos os dias com pessoas machucadas moralmente e desiludidas, querendo encontrar amor, respeito e companheirismo, e muitas chegam completamente desiludidas, sem acreditar que o amor verdadeiro existe. Tenho quase que dar a minha palavra que vi com meus próprios olhos um casal que se ama e se respeita e tem uma família sadia. Parece que estou falando de um conto de fadas! E quem dera as pessoas estivessem sonhando com príncipes ao invés de abusadores.
Isso" tudo me faz lembrar do maravilhoso livro de Clarissa Pínkolas, "Mulheres Que Correm Com Os Lobos no qual a autora discorre sobre a interpretação psicológica de diversos contos de fadas que tem raiz arquetípica relacionada ao feminino. E eu diria a todas estas mulheres encantadas com o abusador que elas precisam ler o conto do Barba Azul, pois estão o confundindo com outro personagem, a Fera de A Bela e a Fera. A Fera é aquele masculino bruto que vira príncipe, algo misterioso e assustador que encanta muitas adolescentes, mas lembrem que a Bela nunca se deixa humilhar. Já o Barba Azul é aquele que após seduzir (inclusive com bens materiais) no final de tudo aniquila a sua vítima após ter extorquido sua vida e ainda coloca a culpa nela, fazendo-a sangrar esquartejada durante a eternidade.
Cuidado pois o que parece uma coisa pode ser simplesmente uma armadilha, os contos nos ensinam a afinar o faro para armadilhas, seja pela inexperiência adolescente ou pela infinita carência de amor verdadeiro encontrada nas mulheres pseudo-maduras dos dias de hoje.